17/06/09

TUDO CONTROLADO: AS FUGAS DE INFORMAÇÃO

Os pseudo-eventos podem ser, também, do tipo Fugas de Informação. É uma espécie de clímax dos pseudo-eventos, em que há uma informação que tem de ser dada aos jornalistas, mas para garantir a atenção é necessário promover, antes de o evento acontecer, através dos jornalistas. Para se ter conhecimento daquele evento e da mensagem que vai ser transmitida, é-se antecipado nos media esse evento ou acontecimento.

Um caso real. No dia 16 de Junho foi apresentada a sede de campanha eleitoral do presidente e candidato à câmara municipal do Porto, Rui Rio. No entanto, o Jornal de Notícias do Domingo anterior fazia, já, referência ao evento. O que chamamos a isto?...

As fugas de informação são, também, um pseudo-evento porque são preparadas. Há que ter em atenção, que estou a falar de estratégias. Logo, refiro-me a fugas de informação, que são, estrategicamente, planeadas e pensadas para determinado objectivo político.

Isso é verificável em “Os Homens do Presidente” no episódio Na esquina da 18ª Polomac (episódio 21, da segunda temporada) em que os assessores de imprensa vão fazer um programa televisivo de 30 minutos com o presidente e a primeira-dama, para anunciar a doença e pedir desculpa por tê-la escondido. No entanto, ninguém pode saber até lá, para não se criarem expectativas e se perder a notícia, por isso C.J. diz a um produtor que dá 30 minutos do presidente, na Sala Oval, na quarta-feira à noite, mas só revela os pormenores na quarta-feira de manhã, quando “preparar a fuga de informação”.

C.J.
That we need thirty minutes Wednesday night. On Wednesday morning, I'll tell you why.
You pick the interviewer, they'll have 10 hours to prepare.
C.J.
Paul, we'll start to leak Wednesday morning to soften up the ground a little bit.
Anything leaks before then and I'll take my business across the street.
 
Mas, não só na ficção estes casos acontecem. As eleições de 1992 nos EUA, a candidatura de Bill Clinton em 92. Todas os dias as estruturas regionais e locais eram informadas do tema e do discurso que o candidato ia utilizar. Estas estruturas adaptavam esse tema às questões locais e regionais, preparavam um conjunto de iniciativas e lançavam o material para os media. O resultado era Clinton ver repercutido a sua mensagem, praticamente por todo o país e espalhada por milhares de apoiantes.” Mas, também, a Espanha, um país, nosso vizinho, acabou por adoptar esta metodologia, nas eleições do ano seguinte (1993) “todos os dias, antes das 11h, a Esquerda Unida enviava para todos os candidatos um fax com as linhas fortes da mensagem a difundir nesse dia.
Maioritariamente, as fugas de informação são utilizadas pelos políticos, devido ao maior volume de informação produzida, como controlo de informação que vai ser transmitido. “Em teoria, a fuga’ consiste na divulgação parcial, prematura, e oficialmente não autorizada, de informação sobre acontecimentos ou assuntos em fase de apreciação ou discussão.”
É o que acontece no episódio Vida em Marte (episódio 21, da quarta temporada), dos “Homens do Presidente”, é chegada a informação de um relatório secreto da NASA, no qual o vice-presidente está envolvido, que especifica que foi descoberta água num meteorito vindo de Marte, o que poderia significar a existência de vida em Marte. Mas este relatório é secreto. E chegou a um jornalista, que encaminhou a informação a um repórter.
C.J.
Well, this may sound silly, but the science editor from the Washington Post has a source - a blind source - who says that the Vice President personally told him - the blind source - that the Vice President interfered to classify a report that a NASA commission, which he heads, has saying that there's life on Mars.
No entanto, o relatório existia mesmo e tinha sido tornado secreto pelo Departamento da Defesa, em conhecimento com o presidente e o vice-presidente. Ou seja, a fonte da fuga de informação cometeu um erro ao dizer que tinha sido a Casa Branca a ocultar o relatório. 
HOYNES
I know why he's asking. I know why he's asking. I understand why you're here. I've spoken with C.J. [pause] Yes. And I like to show off. I... said things. I said I'd seen proof of life on Mars. I said I'd intervened at the Justice Department to put 100,000 computers into classrooms, which I thought made me sound, like a good guy.”
O vice-presidente quem passou as informações daquele relatório. Tinha uma relação extra conjugal com uma escritora, a quem ele tinha comentado aqueles factos. Para promover o livro, que acabava de lançar sobre o assunto, Helen Bowlin lançou a (fuga de) informação a um jornalista do Washington Post.
Neste caso, não se pode falar de fuga de informação estratégica, ou melhor, como uma estratégia política. Apenas se trata de alcançar um objectivo pessoal – a promoção do livro.
Outras características das fugas de informação é que esta “é selectiva e possui objectivos previamente estabelecidos. Através da ‘fuga’ pode transmitir-se informação ‘verdadeira’ ou fornecer ‘pistas’ falsas para testar reacções ou desviar atenções de outro assunto. É usada em manobras de contra-informação como instrumento desestabilizador de pessoas ou instituições.
N’ “Os Homens do Presidente” é visível alguns momentos da descrição acima presenciada. Em As coisas correm (episódio 21, da sexta temporada) Toby denunciou que há um vaivém não civil, através de uma fuga de informação num jornal. 
O vaivém não civil é segredo de Estado. E não é conveniente que saiba da sua existência, porque isso levantaria uma série de questões jurídicas. No entanto, recebe-se a informação de que três astronautas estão presos no espaço, devido a uma avaria no vaivém em que seguiam, e que estão a ficar sem oxigénio.
Ora era importante o recurso a esse vaivém para salvar essas vidas. Mas há um dilema entre enfrentar as questões jurídicas ou tornar o vaivém, não civil, público. De forma a tornar irreversível o salvamento, Toby lança a fuga de informação, dizendo que há um vaivém não civil e que pode ser a salvação dos três astronautas presos no espaço.
Neste caso, a fuga de informação obedece a uma estratégia. Não a uma estratégia política, mas a uma estratégia pessoal de tornar o salvamento irreversível. 
Também em Vera Wang Negro (episódio 20, da terceira temporada) está presente uma fuga de informação com uma estratégia pré-estabelecida. Desta vez uma estratégia política. 
Uma cassete com um anúncio de campanha negativa contra o presidente Bartlet chega à Casa Branca e ninguém sabe como, nem por quem. Alguém que produziu o vídeo tinha um informador e enviou a cassete para antecipar o vídeo.
BRUNO
There are only two things here. Either someone's trying to hurt us, or somebody's trying to help us. Just so you know.
No entanto, a cassete tinha sido enviada com o propósito de denegrir a imagem do presidente. Marcaram um almoço com Sam, que lhes entregou a cassete e disse que tinham um informador. Mas aquilo era uma cilada, e a imprensa tinha recebido a informação do almoço. Aquando da entrega da cassete saíram sucessivas notícias negativas sobre aquele acto de Sam, o que foi desastroso para a campanha de Bartlet. 
BRUNO
This is three, four-I don't know a dozen news cycles - where we're playing politics and losing. Let me be clear the pledge is their idea. Any move we make on it we lose, any move they make they win.
Aqui a presença da fuga de informação já pressupôs uma estratégia política, um objectivo e uma falsa informação. Aqui funcionou como um elemento destabilizador do presidente Bartlet.
Assim como no filme Manobras na Casa Branca em que através de rumores (fugas de informação) lançam a história da guerra na Albânia e abafam a história do assédio sexual. Mas, nesta ficção a assessora é, ainda, incumbida de passar uma música para a comunicação social (fuga de informação com uma estratégia política), para que a continuidade do filme - que está a ser produzido para desviar as atenções do escândalo sexual do presidente, a seis dias das eleições - ganhe consistência e actue na opinião pública. Para isso foi preparada uma fuga de informação da música, que foi antecipadamente, cedida a um órgão de comunicação social. 
No episódio Mentiras, Malditas Mentiras e Estatísticas (episódio 21, da primeira temporada), há um momento de fuga de informação, no entanto, este não relacionado com uma estratégia pré-definida. Apenas pretende antecipar uma notícia. 
O assessor Sam Seaborn namora uma prostitua, e está a ser “investigado / seguido” por esse facto. Uma vez confirmado pode trazer problemas para o Presidente Bartlet. 
Numa noite, Sam oferece um presente à namorada como felicitação do final da graduação em Direito. No entanto, ele foi fotografado pelo The London Daily Mirror, que fazia sair a notícia nesse dia em Londres, e as fotos seriam vendidas aos jornais americanos no dia seguinte. Para antecipar a notícia, que iria sair em Londres, Leo pediu a C.J. que ligasse ao jornal Post e ao jornal Times (“Work to the Post and Times”) passando a informação da notícia correcta e das fotos, por forma, a que quando elas chegassem já não fosse uma surpresa, ou constituísse um motivo de notícia escandaloso.
Pode ser considerado uma fuga de informação, na medida em que as fontes oficiais sabem da notícia e passam-na para os jornais. No entanto, não constitui uma estratégia em volta dela, como as outras, anteriormente, analisadas.
Fica provado, através desta análise, que o recurso a fugas de informação tanto pode ser com objectivo político, estratégico, ou por mero objectivo pessoal. Sendo, porém, mais uma forma de manipular e controlar as informações a proveito próprio.

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