
Existem dois tipos de manipulação. Aquela que escolhe uma parte e a valoriza, a que podemos considerar como legítima. E a que deturpa a realidade, sob o ponto de vista ilegítimo – o spinning! “Spinning trata-se do controlo da agenda política mediática colocando temas fortes para dissimular outros temas mais incómodos.”
Os meios de Comunicação Social são, portanto, o seu veículo de manipulação mais importante. É a eles, que o spinning se dirige. É as suas atenções que ele pretende alcançar, pois a imprensa, ou, generalizando, a comunicação social, “pode tanto destruir como eleger um candidato”. No caso do spinning, elege candidatos!
Todo este conceito de spinnig está volvido de algum secretismo, mesmo pela validade da actividade desenvolvida, daí, que tenha relacionado no mesmo tema, manobras de bastidores. Porque, no fundo, o que a actividade de spinning faz são manobras, que controlam os mass media, e por esse meio toda a opinião pública. Porquê “de bastidores”, porque ninguém anda na rua dizer “eu preciso de alguém que faça spinning, para ganhar as minhas eleições”, logo, a actividade é volvida em secretismo e misticismo, nos “bastidores da política”.
No entanto, o spinning não se faz sozinho. E, também, muitas vezes, ou quase sempre, não é o “simples” assessor de imprensa a fazer. Nos Estados Unidos surgiu o termo Spin Doctor.
Quando é que aparece um spin doctor? Sempre que seja necessário desviar atenções. Sempre que seja importante sobrepor um assunto a outro. Sempre que seja relevante manipular. Pode dizer-se que o spin doctor é “o senhor resolve tudo” (Manobras na Casa Branca), que está presente em momentos de crise. Manipula a realidade, criam manobras de diversão, destroem adversários.
Há duas formas de um político reagir a uma crise. Com comunicação de crise, revelando transparência, disponibilidade, segurança e transmitindo confiança. Ou com spinnig – alteração da realidade, deturpação do conceito de verdade, onde, a maior parte das vezes joga com a mentira e a farsa. Pode mesmo dizer-se que o spinning, ou os spin doctors, criam uma realidade, inventam uma realidade falsa, para esconder ou esbater uma realidade verdadeira!
To spin, em inglês, significa “desviar a trajectória”. Neste caso concreto, encaminhar a opinião pública para uma trajectória, para a qual não iria sem a intervenção do spin doctor. A opinião pública é manipulada através de informações favoravelmente controladas, que visam um objectivo, ou desviar atenções de determinado assunto, ou actuar na formação de consensos dentro da opinião pública.
“Homem do pormenor e especialista em golpes baixos é um pioneiro das novas tecnologias”.[1] Distinguem-se pelo secretismo, obviamente, ou talvez, por se aplicar a um campo do “vale tudo”, baseado em vigarices que não convêm ser anunciadas publicamente porque, acima de tudo, são condenáveis. Por isso, se classifica que um spin doctor actua à margem da lei.
Já não estamos no campo da assessoria, pura. Mas de alguém que, sem olhar a meios, serve-se de todas as munições e uma fértil imaginação para servir o seu cliente utilizando, se necessário, golpes mais baixos. Um spin doctor não deixa impressões digitais directas e não contacta com a comunicação social.
No filme Manobras na Casa Branca, apesar de ficcionário sobre esta realidade, ele expõe o tema com uma certa relevância aos pontos acima referidos. Conrad Brean é contratado para garantir a reeleição do presidente, sendo que não tem contacto directo com o próprio. O presidente não aparece, nem mostra a cara ao longo do filme, o que eleva a posição de poder e de destaque de um spin doctor. É implementado sempre algo fictício, como é o caso da “guerra criada”, acabando mesmo por ser descoberto pelos agentes da CIA. A quem, ousadamente, foi comprado ou seduzido o próprio silêncio das autoridades. Manipula-se a realidade a fim de desviar as atenções dos media e, ao mesmo tempo, distrair a opinião pública, com a produção e estratégia da pormenorização de um filme, que não passa de “mais uma ficção de Hollywood”, desta vez comprada, para simular uma guerra.
Também outro filme se assemelha a este no recurso ao spinnig para eleger um presidente. Spinning Boris é um filme que retrata a realidade de uma estratégia bem definida por três americanos, que foram contratados para que o presidente Boris Yeltsin fosse reeleito. Tal como no outro filme referenciado, recorrem a algo fictício, neste caso a alteração da imagem do presidente Boris, que passa a mostrar-se mais sorridente e comunicativo com os seus eleitores, mais próximo do público e até mais solidário, ao plantar, ele próprio uma árvore. E, também, aqui é demonstrada a necessidade de controlar a sociedade, como forma de atingir o objectivo proposto.
O conceito de Spinning é, habitualmente, associado às ideias chave de “jogo sujo”, de “vale tudo”, onde se segue o velho ditado popular “não se olham a meios para atingir os fins”. Inventa-se uma guerra para manter a comunicação social e a opinião pública entretida! Estamos a falar no recurso a manobras que “envolve métodos de manipulação de informação, abertos ou encobertos, pelos agentes políticos em posição de poder”[2]
No final do filme Manobras da Casa Branca, o produtor da guerra inventada para desviar as atenções do escândalo sexual e conseguir tempo e espaço nos media, quer a glorificação do seu trabalho, não entendendo que não pode revelar tudo o que havia sido encenado até ali. Como ele não entendeu, acabou por ser assassinado para que não dissesse nada à Opinião Pública, ainda que inconscientemente. É um espaço onde o “vale tudo” vale mesmo tudo!
Acima de todas as características acima enunciadas sobre o spin doctor e sobre a actividade de spinning, para mim a que mais se adequa é a de minucioso. Sem dúvida, que alguém que vive na sombra, à margem da lei, que vive numa actividade desregulamentada e nem se quer reconhecida, tem de ser alguém minucioso. Nada pode falhar. E é esse mesmo pormenor que mais atenção chama no filme Manobras na Casa Branca, em que os pormenores são pensados à exaustão. Aquando da encenação de mais uma parte do filme, calha de estar a chover, e a preocupação de Cornad Brean foi “vai chover onde o presidente está? Então desviem o avião para um sítio onde vá a chover”.
Também em “Os Homens do Presidente”, no Universitários (episódio 3, da quarta temporada) o Ministro dos Negócios Estrangeiros de um país ficcional (Qumar) é considerado terrorista. Perante a situação, a equipa do presidente Bartlet manda assassiná-lo, mas o assunto fica encoberto. No entanto, um jornalista descobre e começa a investigar. Perante a eventual situação de crise, os envolvidos, avançam com uma campanha de contra-informação ou o spinning!
Destroem um documento que continha as provas do acto ilegal, e contratam uma advogada para preparar a defesa, quando a noticia vier à opinião pública.
“LEO to JORDON (advogada)
Nobody does. And we're talking about we killed Shareef. We put 14 bulletsin his chest on an airstrip in Bermuda. It's helpful to start saying out aloud.”
Porém, chegam a um ponto, em que é inevitável o spinning. Não podem chegar à comunicação social e simplesmente assumir “eu sou o presidente dos Estados Unidos e mandei matar o ministro dos negócios estrangeiros de Qumar.” Então o grupo envolvido decide avançar com um plano estratégico, há que acentuar que foi pensado e desenvolvido por eles, não contou com a actuação de terceiros, ou de um spin doctor.
“BARTLETAll right. In the meantime, what do we do have by way of stalling tactics?LEOA misinformation campaign. FITZWALLACESir, State feels the Shareef was never comfortable with the Sultan's friendly relationship with the West. BARTLETState thinks he had a friendly relationship with the West. FITZWALLACE"The one-eyed man is king in a world of..." whatever. We leak that Shareef used his U.S. trip as an opportunity to fly to Libya.
BARTLETShareef is now alive and well and living in Libya?FITZWALLACEAnd planning to overthrow his brother, and install a fundamentalist regime.”
Inventam o que vão dizer quando forem descobertos. Spinning ao mais alto nível e sem a participação, pelo menos visível, de um agente desse ramo. Mais o caso vai, ainda, mais longe. Chegam mesmo a inventar documentos, fotografias, sons áudio, e, até, um duplo do agente, que supostamente estará vivo.“FITZWALLACEBasically, Langley manufactures documents, photographs, audio messages, even a body double, if neccesary. BARTLETIs this going to get ridiculuos? FITZWALLACEAbsolutely. We make sure agents in Iraq, Syria and Iran get a whiff of the story and word inside and outside of the palace spreads.
BARTLETWe'll see it Al Jazeera? FITZWALLACEIf we do our jobs.BARTLETNo disinformation to U.S. press, right? We don't give disinformation to the American press? Unless it's about my health?”
Neste episódio é apreciável a facilidade com que se criam e ficcionam situações para cobrir outros acontecimentos. Desde logo, sente-se a forte presença da desregulamentação, que em caso de existência reprovaria este tipo de atitudes.Porém, em democracia, em política, em matéria de opinião pública, o “vale tudo” é a regra máxima pela qual se regem. Não há regras, não há regulamentação, não há preocupação. Há um problema sem solução à vista? Distrai-se a opinião pública. Inventa-se a situação perfeita, influencia-se os jornalistas, e passam a “heróis” da opinião pública! Afinal de contas, “não importa como se chega lá, o importante é chegar”! (Manobras na Casa Branca) [1] Revista Visão de 13 de Novembro de 2003
[2] Vítor Gonçalves; Nos bastidores do Jogo Políticos: O poder dos assessores; Coimbra; Minerva; 2005; pg.125.
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